E ao ver aqueles olhos, se apaixonou.
Era só que descrevesse para seu coração a sensação louca e divina de ter em suas mãos aquela mão. E fechou os olhos e viu. Aquele rosto era agora o plano de fundo de todos os seus pensamentos. Aquele sorriso, aqueles movimentos. Tudo.
Ele era lindo. Como um rio prateado. Inconcebível sua beleza. Mas aos olhos o olhar se foi. Distância cheirava a sal. Sobre a neve, sob nuvens estranhas. E o beijo indescritível narrou-se em forma de riso, envolto em um frio lindo. E o que era claro e branco e ... tornou-se escuro, aquecido e triste. O tempo apresentou como um presente seus olhos passados e mortos. A neve havia sido. As mãos o mesmo. Agora era um vazio longo e tão lilás quanto o, já inexistente, frio que o fazia sentir que mesmo que tudo voltasse a ser como antes... nada resolveria o incurável medo de viver o que já vivia conscientemente. Então sentou-se. Aves tropicais pousaram em suas pernas trêmulas. Rios desérticos secaram seus olhos. Árvores interestelares tornaram inférteis sua pele profunda. Tudo desapareceu, até ele próprio.
Personagem – Que lindo! (fechando o sorriso) piegas, ridículo.
Escritor – Não! Cale-se. Vou contar sua história. Não há nada que possa fazer para me impedir.
Personagem – Estou morto. É claro que não posso te impedir, e mesmo se pudesse, não tentaria. Só desaconselho que o faça.
Escritor – Qual é sua questão? Teme que destorça sua vida... prometo ser fiel ao que te aconteceu. Juntei muitos dados ao seu respeito. Sou capaz de narrar muitos de seus dias, toda sua história... e que história!
Personagem – (em gargalhada!) Pouco me importa o quanto você sabe de mim e não acredito em fidelidade... amadureci demais para acreditar nessa utopia infantil. Você vai estar muito mais presente na minha história que eu...
Escritor – Não entendo sua rispidez! Há uma verdade sobre tudo o que lhe ocorreu. Ou estou enganado? Você passou mesmo por todas aquelas coisas não foi?
Personagem – (com um sorriso cínico!) Há? Eu estou morto, lembra?! De que vale minha resposta?
Escritor – Prometo me esforçar.
Personagem – ...
Escritor – É que eu acho sua história tão... especial.
Personagem – É... eu não acredito que haja histórias especiais.
Escritor – Há alguma coisa em que você acredite?
Personagem – Há! Eu acredito na dor, essa me matou. Eu acredito no ódio que sinto de tudo o que vive... sinta-se incluído. acredito na inveja que me tortura, toda vez que vejo alguém que me pareça feliz... sinta-se, mais uma vez, incluído. Até acredito na sua boa vontade ridícula de retratar minha vida...
Escritor – Como você é pessimista...
Personagem – ...
Escritor – Você pelo menos acredita na minha capacidade de fazer um livro que tenha alguma... qualidade.
Personagem – Sinceramente? Não. Assuntos relacionados a vida estão esgotados. Falar de gente é se repetir, soa eco, discurso enfadonho. Você não existe... você é tão morto quanto eu... se não há escrita, para que servirão os escritores.
Escritor – Mas vou tentar fazer a diferença... sua história é especial, mesmo que você não concorde com isso.
Personagem – (uma gargalhada gostosa!) Não há “especial” (entre os dentes) que triste!
Escritor – Eu costumava te achar especial! Apaixonei-me... desde que soube de sua vida!
Personagem – Pois me escreva, não tenho como impedir, você mesmo o disse. E tenha um prazeroso e meritório fracasso!
Escritor – ...
Personagem – Você consegue conceber coisa mais patética do que sentir paixão?
Escritor – Achei que alguém se interessaria em ouvir tudo o que você passou.
Personagem – A que se refere!? A minha covardia, a traição que sofri, a minha fuga para dentro de mim, o meu suicídio, a minha hipocrisia de sorrisos fartos? Ah!, a minha estupidez! Sentimento é o que copiamos torpemente dos cristãos que necessitavam de procriação e inventaram em seu divino pragmatismo. Eu morri de tristeza, isso não te diz nada. Talvez nem tristeza exista. Já sei... você acha que Alguém deve se interessar por saber sobre a minha enfadonha morte?
Escritor – Tudo o que sei fazer é escrever. Aconselha, então, que eu pare?
Personagem – Aconselhar?! Estou aqui falando... você não entendeu nada.
Escritor – O que faço então? Aceito a derrota!
Personagem – Poxa! Acho que foi essa sua frase mais sensata, desde que aqui estamos! Finja, minta, siga seus instintos, seja mal e faça-se passar por bom, seja pragmático como todos são. Destrua tudo o que tocar, magoe quem puder. Odeie e sorria como se amasse. Manipule. Isso fará de você um vencedor... tome essas palavras como ensinamentos de quem viveu... experiência de vida... e de morte.
Escritor – Então não.... nunca mais escrevo.
Personagem – Não faça.
Escritor – já sei! Vou escrever essa nossa conversa. Fingirei que ela aconteceu.
Personagem – ... (um sorriso orgulhoso entre os dentes).