02 Novembro, 2005

O canto da nuvem.

E a nuvem foi fluindo e cantarolando uma musica lenta e leve, o contato desse cantarolar em seus ouvidos dizia aos seus corações suas histórias tristes. Felizes e mortos. Cantava a nuvem:
“Seu mundo ficou escuro
Tentando cobrir o vento
Felicidade é como um muro
Que faz da dor... alto alento

Cruzando o verde estreito
Vermelho no céu anil
Formando contraste feito
Buquês em pleno abril

A tarde nos viu de longe
Chegou-nos a noite, triste
Abraço do gris esconde
A dor que não mais existe

O tempo parou baixinho
Sussurrando seu segredo
Felicidade vem do carinho
E o medo vira brinquedo”

04 Outubro, 2005

Revelação

- Fiquei todo esse tempo sem escrever porque fugia. Queria dar conta de voltar sem falar disto. Não posso.
- Sente-te em paz, meu filho.
- Impossível, e se tudo sabes, bem sabes.
- Não posso fazer com que compreendas meu tempo, meu filho. Mas não te preocupes... serás recompensado por tanta dor.
- Tenho te odiado.
- Bem o sei. E teus sentimentos me têm feito sofrer.
- Eu te odeio.
- Perdoa-me. Há um sentido. Verás um dia.
- Acho que não resisto a espera. Só acontece que podes responder isso bem melhor que eu... pena que o silêncio sempre seja tua resposta. Cansei-me dessa dúvida. Hoje ignoro-te.
- Bem o sei, e te compreendo.
- Esperava mais de ti. Pareces, aos meus olhos, incapaz. Fraco. Ou covarde. Cruel. Nunca o que esperava de ti.
- Continua. Precisas dizer. Esse é o momento de atenuares tua dor.
- Cala-te. Cala este silêncio indigno, covarde.
- Amparar-te-ei em meus vastos braços. E embora nunca perceba o conforto invadirá tua vida até que o meu tempo chegue. Não podes entender, meu filho.
- Impedes-me de ir. Confortas-me e manténs-me sofrendo. Odeio-te. Deixa-me ir.
- Chora.
- ...

18 Setembro, 2005

Sentença

Li o futuro.
Difícil leitura... dessas densas. Mas li... li meu futuro. E gostei do que vi. Descobri que sofrer é infantil. Que com o tempo toda a dor se torna nada mais que a realidade. A única opção. Então vou perceber que qualquer tentativa de saná-la, fugir dela, contorná-la, vencê-la, esquecê-la, é vã... é falta de experiência. Num dia qualquer vou caminhar numa rua qualquer, sozinha como agora, e vou perceber a beleza de chorar em desespero. A beleza da solidão absoluta.. Vou até sorrir às vezes, como faço. Vai ser manhã. Vou perder de vez a crença na possibilidade alegria. Vou vencer cada medo, tornar-se-ão todos reais. Parte da minha visão me abandonará. Incapaz de movimento que seja em direção que seja, vou estar livre... plenamente livre.
Vou fechar meus olhos e vou ver todo meu sofrimento como partes do meu corpo... como um órgão. Como minha pele. Ou meu cérebro. Esse brilho que ainda teimo em manter em meus olhos, vai desaparecer. Minhas lágrimas secarão por completo. Aí... toda vez que estiver sentada sozinha em meu canto, vou rememorar tudo o que passei e vou maldizer a juventude, cada lágrima desnecessária e toda rejeição a dor. Sofrer é infantil... mera falta de experiência.
No lugar do meu coração vai habitar meu peito... uma pedra. E com o tempo eu mesmo tornar-me-ei pedra. Vou perder a capacidade de falar. O silêncio tomará totalmente o que se apresenta como possibilidade de pedido de ajuda. Vou vagar pelas ruas. Sem necessidade de rumo. Vou abandonar minha casa, essa também far-se-á desnecessária. Vou sentir frio... impassível. Vou sentir fome e sede... impassível. Vou depender da caridade alheia. Vou finalmente ver-me profundamente doente. E num dia qualquer vou morrer.
Sentada sobre um pano sujo e empoeirado vou sentir a morte chegando. Ela vai se aproximar... primeiro tomando-me a pouca restante visão que até então terei. Depois em pleno escuro, ela via tomar cada um de meus movimentos. Sentirei como se cada membro meu fosse sendo retirado de mim com precisão. Então vou perder a capacidade de respirar ficando gradativamente sem ar... e sem poder me mexer vou tentar pedir ajuda, mas o silêncio vai me impedir. Vou sentir o efeito da morte levando minha existência por algumas poucas horas e... em alguns poucos dias, tornar-se-á absolutamente incômoda minha presença.
Hoje... tentando fugir de mim, Li meu futuro. Sei como tudo vai acontecer e estou confortável agora. Em algumas poucas décadas vou experimentar o que a vida apresenta como opção alternativa ao meu presente. Difícil leitura... dessas densas. Mas li... li meu futuro. E gostei do que vi.

10 Setembro, 2005

O Não-diálogo

Impossível diálogo. Um dormia.
- Preciso que tu não saibas como eu preciso de ti.
- Entendo!
- Não sei o que fazer.
- Mas tu me disseste, não é verdade?
- É! Louco.
- O que tu esperavas.
- Não sei. Queria que tu soubesses o quanto és importante.
- Ah! E tu achas que eu agora sei como sou importante?
- Agora sim. Sabe o quanto eu espero de ti. E eu acho que isso está pesando. Acho que eu vou perder você. Essa opção me assusta tanto.
- Mas, tu viveste sem mim.
- É, mas... por favor, não sabe do quanto eu te preciso.
- Acho que não é possível. Voltar às vezes é mesmo a melhor das opções. Mas é invariavelmente impossível.
- Dá-me um conselho então?
- O que tu esperas de mim?
- Eu não sei. Talvez mais do que tu possas dar. Acho que esse é o problema.
- Mas eu preciso tanto de ti quanto tu de mim?
- Queria saber, tu és tão forte.
- ... estou te fazendo sofrer, não é?
- Não. É... estás. Um pouco. Na verdade eu que mais uma vez fiz tudo errado.
- Você acha que tem solução?
- Não sei. Tenho muito medo de te perder. Eu sou muito egoísta. Queria-te só pra mim.
- E eu não posso ser só teu?
- Não sei. Não.
- E isso? Essas palavras perdidas. Lançadas ao ar. Se eu ler, vou perceber ainda mais forte o quanto tu me precisas.
- Mas, tudo bem. É só que tu nunca as vejas.
- Teu maior medo é me perder?
- Ajuda-me.
- É o que faço. Tu disseste!
- Então acorda.
- Vou te ajudar a decidir o quanto posso saber sobre o que eu já sei?
- Acorda.
- Tu sabes que eu não vou acordar, nunca. Não aqui!

05 Setembro, 2005

De Alguém Nada Impune, Essas Linhas.

Era só um cômodo vazio. Que se encheu de repente por um som harmônico e cheio de SENTIDO.
- Dar valor ao dito, como forma de resistência! Adoro-te.
O que dizer. Cada linha era sincera. Era a necessidade e o desejo que convergiam de forma impávida. E o que fora cômodo viu-se menos sofrimento. Menor. Era apenas alguém, impossível ser alguém que não num mundo pequeno de calorosos abracinhos. Queria só dizer o quando estava grato. Mas como? Ressoa o silêncio no cômodo vazio. Ressoam as palavras e a alegria trazida pelo dito. O dia nem havia amanhecido.
- Talvez eu desejasse o pior. O castigo do afastamento. Cada linha tinha a intenção de te mostrar o que eu sou. Nada digno.
E o vazio abandou o domingo. Entre sentidos e instintos. Entre gargalhadas e algumas disfarçadas lágrimas. Ele sonhou com um mundo onde ele mesmo existisse independentemente de seu sentido. Queria crer.
- Como dizer esse obrigado? Como? Não... não concordo com você!
Buscava nas linhas da dedicatória como mostrar a afeição. E os dois amigos sentados, distantes, viam surgir na falta de luz de uma noite surpreendentemente curta, o que dava sentido ao contato. E o nefasto sentido.
- Somos Almas quase Gêmeas... Odeio as músicas dele. E a voz dele. As letras dele. É... mais uma vez eu não concordo com você. - E a gargalhada estuprou o silêncio. Quatro da manhã.
Era a dor o segredo. E essa lhes eram peculiares. Cômico. Nada mais cômico que o sofrimento.
- Então é esse silêncio o que você me oferece... olha que eu te processo! Poderia ter sido um domingo. Não... foi mais, bem mais.
- Obrigado.
- Você pode estar bem... basta que resolva pequenos detalhes.
- Pequeno, nesse mundo, só os imaginários abracinhos. - A gargalhada.
Nada disso vai, agrupado em linhas, fazer muito sentido. Mas vai fazer algum sentido, o suficiente para conferir... existência. Mas com se pode pretender entender. Tratam-se apenas dos sentimentos De Alguém Nada Impune, Estas Linhas.

31 Agosto, 2005

A Florzinha

Queria escrever sobre uma florzinha. Só que antes achei imperativo que eu pensasse: “o que ela representaria?”. Não é literariamente digno escrever sobre a florzinha. Florzinha é só forma... sem conteúdo. Mas e quando a forma é o próprio conteúdo?
Falarei então da florzinha. Sem medo de ser superficial. Nada mais profundo que uma bela florzinha?
Era uma pedra cinza onde estava parada e multicolorida a florzinha. Ela era triste. Ela sabia ser a reminiscência de beleza naquele cenário... dependia de seu esforço, mas mais triste que a florzinha estava a moça. A florzinha era tudo o que a moça tinha. Não é mais só a florzinha. Há alguém agora que a assiste. Agora ela realmente existe. O que não é visto simplesmente não existe. Eu mesmo sou pouco mais que inexistente. Mas a florzinha um dia amanheceu chorando. Era como se o nascer do sol num dia claro fosse capaz de revelar às almas mais sensíveis o triste futuro que as espera. A moça tivera da mesma maneira amanhecido chorando e eu ... eu não choro nunca. Nem quando meu corpo implora... meus olhos secam... nem quando via a florzinha.
Hoje a florzinha é só mais uma lembrança, uma imagem longínqua na mente dos que a a viram... para quem nunca a viu... ela nem nunca existiu. Sobre a pedra... sua imagem multicolorida viu-se passado quando do toque descuidado da moça com as solas de seus sapatos lindos. A moça que se atirou da pedra, pisou na pobre florzinha. Sobre a pedra, hoje me lembro... ou crio... tudo sobre a florzinha que me trás lágrimas aos olhos, mas nunca choro. Naquela manhã de sol, ambas se foram e tudo o que ficou, de seus sofrimentos, ficou bem aqui onde as guardo.
Queria escrever sobre uma florzinha, imaginária ou real. Metáfora ou só florzinha. Mas é inútil fazer o que quer que seja, se mais cedo ou mais tarde... amanheceremos chorando... prevendo o que diz o nascer sol às almas sensíveis.

25 Agosto, 2005

O fim...

E ao ver aqueles olhos, se apaixonou.
Era só que descrevesse para seu coração a sensação louca e divina de ter em suas mãos aquela mão. E fechou os olhos e viu. Aquele rosto era agora o plano de fundo de todos os seus pensamentos. Aquele sorriso, aqueles movimentos. Tudo.
Ele era lindo. Como um rio prateado. Inconcebível sua beleza. Mas aos olhos o olhar se foi. Distância cheirava a sal. Sobre a neve, sob nuvens estranhas. E o beijo indescritível narrou-se em forma de riso, envolto em um frio lindo. E o que era claro e branco e ... tornou-se escuro, aquecido e triste. O tempo apresentou como um presente seus olhos passados e mortos. A neve havia sido. As mãos o mesmo. Agora era um vazio longo e tão lilás quanto o, já inexistente, frio que o fazia sentir que mesmo que tudo voltasse a ser como antes... nada resolveria o incurável medo de viver o que já vivia conscientemente. Então sentou-se. Aves tropicais pousaram em suas pernas trêmulas. Rios desérticos secaram seus olhos. Árvores interestelares tornaram inférteis sua pele profunda. Tudo desapareceu, até ele próprio.
Personagem – Que lindo! (fechando o sorriso) piegas, ridículo.
Escritor – Não! Cale-se. Vou contar sua história. Não há nada que possa fazer para me impedir.
Personagem – Estou morto. É claro que não posso te impedir, e mesmo se pudesse, não tentaria. Só desaconselho que o faça.
Escritor – Qual é sua questão? Teme que destorça sua vida... prometo ser fiel ao que te aconteceu. Juntei muitos dados ao seu respeito. Sou capaz de narrar muitos de seus dias, toda sua história... e que história!
Personagem – (em gargalhada!) Pouco me importa o quanto você sabe de mim e não acredito em fidelidade... amadureci demais para acreditar nessa utopia infantil. Você vai estar muito mais presente na minha história que eu...
Escritor – Não entendo sua rispidez! Há uma verdade sobre tudo o que lhe ocorreu. Ou estou enganado? Você passou mesmo por todas aquelas coisas não foi?
Personagem – (com um sorriso cínico!) Há? Eu estou morto, lembra?! De que vale minha resposta?
Escritor – Prometo me esforçar.
Personagem – ...
Escritor – É que eu acho sua história tão... especial.
Personagem – É... eu não acredito que haja histórias especiais.
Escritor – Há alguma coisa em que você acredite?
Personagem – Há! Eu acredito na dor, essa me matou. Eu acredito no ódio que sinto de tudo o que vive... sinta-se incluído. acredito na inveja que me tortura, toda vez que vejo alguém que me pareça feliz... sinta-se, mais uma vez, incluído. Até acredito na sua boa vontade ridícula de retratar minha vida...
Escritor – Como você é pessimista...
Personagem – ...
Escritor – Você pelo menos acredita na minha capacidade de fazer um livro que tenha alguma... qualidade.
Personagem – Sinceramente? Não. Assuntos relacionados a vida estão esgotados. Falar de gente é se repetir, soa eco, discurso enfadonho. Você não existe... você é tão morto quanto eu... se não há escrita, para que servirão os escritores.
Escritor – Mas vou tentar fazer a diferença... sua história é especial, mesmo que você não concorde com isso.
Personagem – (uma gargalhada gostosa!) Não há “especial” (entre os dentes) que triste!
Escritor – Eu costumava te achar especial! Apaixonei-me... desde que soube de sua vida!
Personagem – Pois me escreva, não tenho como impedir, você mesmo o disse. E tenha um prazeroso e meritório fracasso!
Escritor – ...
Personagem – Você consegue conceber coisa mais patética do que sentir paixão?
Escritor – Achei que alguém se interessaria em ouvir tudo o que você passou.
Personagem – A que se refere!? A minha covardia, a traição que sofri, a minha fuga para dentro de mim, o meu suicídio, a minha hipocrisia de sorrisos fartos? Ah!, a minha estupidez! Sentimento é o que copiamos torpemente dos cristãos que necessitavam de procriação e inventaram em seu divino pragmatismo. Eu morri de tristeza, isso não te diz nada. Talvez nem tristeza exista. Já sei... você acha que Alguém deve se interessar por saber sobre a minha enfadonha morte?
Escritor – Tudo o que sei fazer é escrever. Aconselha, então, que eu pare?
Personagem – Aconselhar?! Estou aqui falando... você não entendeu nada.
Escritor – O que faço então? Aceito a derrota!
Personagem – Poxa! Acho que foi essa sua frase mais sensata, desde que aqui estamos! Finja, minta, siga seus instintos, seja mal e faça-se passar por bom, seja pragmático como todos são. Destrua tudo o que tocar, magoe quem puder. Odeie e sorria como se amasse. Manipule. Isso fará de você um vencedor... tome essas palavras como ensinamentos de quem viveu... experiência de vida... e de morte.
Escritor – Então não.... nunca mais escrevo.
Personagem – Não faça.
Escritor – já sei! Vou escrever essa nossa conversa. Fingirei que ela aconteceu.
Personagem – ... (um sorriso orgulhoso entre os dentes).